ICHEP 2026: maior conferência mundial de Física de Partículas pela primeira vez na América Latina

Realizada em Natal, conferência que contou com a presença do HEPIC reuniu pesquisadores de mais de 50 países e apresentou novos resultados do LHC

Durante seis dias, Natal se tornou a capital mundial da Física de Partículas. Entre 30 de julho e 5 de agosto, a capital do Rio Grande do Norte recebeu a 43ª Conferência Internacional de Física de Altas Energias (ICHEP, na sigla em inglês), realizada pela primeira vez na América Latina em mais de 70 anos de história.

Considerada a principal conferência internacional da área, a ICHEP 2026 reuniu mais de mil pesquisadores de universidades e centros de pesquisa de mais de 50 países. Foram 863 palestras, 49 sessões plenárias e 173 apresentações de pôsteres, cobrindo temas que vão da física de partículas e aceleradores até cosmologia, astrofísica de partículas, desenvolvimento de detectores e computação científica.

A história da conferência remonta às Conferências de Rochester, iniciadas nos Estados Unidos na década de 1950. Atualmente realizada a cada dois anos sob os auspícios da União Internacional de Física Pura e Aplicada (IUPAP), a ICHEP é tradicionalmente um dos momentos em que as grandes colaborações internacionais apresentam seus resultados mais recentes e discutem os caminhos da área para as próximas décadas. Em 2026, a organização contou também com a Sociedade Brasileira de Física (SBF) e com o apoio de diversas instituições ligadas à Física de Altas Energias no país.

Uma ICHEP com toque latino

A escolha do Brasil como sede da ICHEP deste ano teve um significado que vai além da mera mudança de continente. A comunidade latino-americana de Física de Altas Energias cresceu consideravelmente nas últimas décadas e hoje ocupa papel importante em alguns dos maiores experimentos científicos do mundo nessa área. Brasil e Chile tornaram-se recentemente Estados-Membros Associados da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN), enquanto mais pesquisadores dos países da região passaram a integrar grandes colaborações internacionais. A própria organização da ICHEP destacou esse crescimento como um dos elementos que marcaram a realização inédita da conferência na América Latina.

No caso brasileiro, a ICHEP ocorreu apenas dois anos depois da entrada formal do país como Estado-Membro Associado ao CERN, em 2024. Desde então, empresas brasileiras passaram a ter acesso aos processos de fornecimento de bens e serviços ao laboratório, enquanto pesquisadores e outros profissionais brasileiros ampliaram as possibilidades de participação em programas de pesquisa, formação e desenvolvimento tecnológico.

A conferência deste ano também procurou aproximar ainda mais a Física de Partículas de um público mais amplo. Entre as iniciativas de divulgação científica, houve a exposição “A Física que nos conecta: CERN e o Brasil”, criada pelo Grupo de Trabalho de Divulgação Científica do INCT CERN-Brasil. A mostra apresenta a trajetória da participação brasileira no CERN, informações a respeito do Grande Colisor de Hádrons (LHC) e dos quatro grandes experimentos instalados no acelerador (ALICE, ATLAS, CMS e LHCb), além de materiais interativos voltados ao público não especializado. Com o fim da ICHEP, a exposição ficará em cartaz por tempo limitado no Campus Natal-Central do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN).

Exposição “A Física que nos conecta: CERN e o Brasil"

Novos resultados do LHC em destaque

Como ocorre tradicionalmente na ICHEP, uma parte importante da programação foi dedicada aos resultados produzidos pelos grandes experimentos do LHC, incluindo o ATLAS e o ALICE, que contam com a participação de membros do HEPIC. Boa parte dos novos resultados teve como base os dados acumulados durante os runs 2 e 3 do acelerador. Os runs são os períodos de operação do LHC dedicados à produção de colisões e coleta de dados, intercalados por paradas para manutenção e atualização do acelerador e dos experimentos.

Os principais resultados do ATLAS foram apresentados por Kerstin Tackmann, pesquisadora do DESY e da Universidade de Hamburgo. Entre os destaques encontra-se a primeira observação da produção de pares de bósons Z longitudinalmente polarizados. Os bósons W e Z são os mediadores da interação fraca e adquirem massa por meio do mecanismo de Higgs. Estudar sua polarização permite testar com grande precisão o funcionamento desse mecanismo e procurar possíveis desvios em relação às previsões do Modelo Padrão.

A colaboração também apresentou uma nova análise da produção simultânea de dois bósons de Higgs. Esse processo é extremamente raro, mas oferece uma das principais formas de investigar como o bóson de Higgs interage consigo mesmo e assim compreender a estrutura do potencial de Higgs. Outros resultados envolveram buscas por fenômenos ainda não descritos pelo Modelo Padrão, incluindo partículas de vida longa e neutrinos pesados.

Kerstin Tackmann, física alemã, apresenta os destaques recentes do experimento ATLAS 

As colisões entre núcleos leves também ganharam destaque e evidenciaram um ponto de contato entre os programas do ATLAS e do ALICE. O ATLAS observou o chamado jet quenching em colisões oxigênio–oxigênio e neônio–neônio: ao comparar pares de jatos produzidos na mesma colisão, os pesquisadores identificaram um desequilíbrio de momento compatível com a perda de energia de quarks e glúons ao atravessarem o plasma de quarks e glúons. Os resultados contribuem para a determinação do quão pequeno um sistema de colisão pode se configurar e ainda assim apresentar esse fenômeno.

O estudo do plasma de quarks e glúons é justamente o principal objetivo científico do ALICE. O panorama dos resultados recentes do experimento foi apresentado por David Dobrigkeit Chinellato, atual coordenador de Física da colaboração. Entre os resultados de destaque,  esteve a medição independente da perda de energia de pártons em colisões oxigênio–oxigênio, por uma técnica diferente da empregada pelo ATLAS. O ALICE comparou a produção de píons neutros de alta energia em colisões oxigênio–oxigênio e próton–oxigênio, permitindo separar a supressão associada à passagem pelo plasma de outros efeitos nucleares. O resultado forneceu evidência clara de perda de energia mesmo nesse sistema relativamente pequeno.

Outro resultado recente ampliou as evidências de comportamento coletivo para sistemas ainda menores. Ao analisar colisões próton–próton e próton–chumbo, pesquisadores do ALICE observaram padrões no movimento de diferentes tipos de partículas compatíveis com um fluxo que já se estabelece no nível dos quarks. O resultado reforça a hipótese de que características normalmente associadas ao plasma de quarks e glúons podem surgir mesmo em sistemas de colisão muito menores do que se imaginava originalmente.

David Chinellato, coordenador de Física da colaboração ALICE, apresentando os resultados mais recentes do experimento

Além dos resultados já obtidos, o futuro do ATLAS e do ALICE também foi pauta da programação, com apresentações de três pesquisadores do HEPIC. No caso do ALICE, o professor Marcelo Munhoz apresentou o projeto ALICE 3, concebido como a próxima geração do experimento para o Run 5 do LHC. O projeto busca ampliar significativamente a capacidade de realizar medidas de alta precisão em colisões de íons pesados e explorar as condições oferecidas pelo acelerador nas próximas décadas.

O professor Marco Bregant, por sua vez, abordou tecnologias que estarão presentes já na próxima fase do ALICE. Ele apresentou o programa de física e o desempenho esperado do Forward Calorimeter (FoCal), novo calorímetro previsto para entrar em operação no Run 4, além de um sistema compacto de leitura baseado no chip SAMPA, tecnologia desenvolvida originalmente para os detectores do experimento.

Já o professor Marco Aurélio Lisboa Leite apresentou um dos novos componentes que prepararão o ATLAS para a fase de alta luminosidade do LHC. Sua contribuição tratou do High-Granularity Timing Detector (HGTD), detector de silício que acrescentará às medições do ATLAS informações temporais com precisão de dezenas de picossegundos. Essa capacidade será especialmente importante no High-Luminosity LHC, quando cerca de 200 colisões poderão ocorrer simultaneamente a cada cruzamento dos feixes, ajudando a associar as partículas à colisão em que foram produzidas e a preservar a precisão das reconstruções do experimento.

Mais do HEPIC na ICHEP 2026

Além das apresentações  sobre o futuro do ALICE, pesquisadores e estudantes ligados ao HEPIC participaram de diferentes atividades da conferência. Um dos destaques foi o trabalho do doutorando Lucas Ferrandi, premiado com um dos Poster Awards da ICHEP 2026. O trabalho apresentado por Ferrandi, “Measurement of the J/ψ Fragmentation Function in pp Collisions at √s = 13.6 TeV with ALICE”, investiga como a partícula J/ψ (pronuncia-se “jota-psi”) aparece no interior dos jatos produzidos em colisões próton-próton. 

Formada por um quark charm e sua antipartícula, a J/ψ é particularmente útil para estudar os mecanismos pelos quais quarks produzidos nas colisões se transformam nas partículas que chegam aos detectores. A análise da chamada função de fragmentação permite comparar diferentes descrições teóricas de sua produção.

Doutorando do HEPIC, Lucas Ferrandi, exibindo seu Poster Award na ICHEP

A presença do HEPIC também alcançou a dimensão institucional do evento. Como coordenador da Rede Nacional de Física de Altas Energias (RENAFAE), o Prof. Marcelo Munhoz participou de uma reunião entre representantes brasileiros e dirigentes do CERN voltada aos próximos passos da cooperação entre o país e o laboratório europeu. O encontro culminou na assinatura de uma Declaração de Intenções para ampliação da cooperação científica e tecnológica entre o Brasil e o CERN, envolvendo a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, e o diretor-geral do CERN, Mark Thomson. A reunião também tratou da participação do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) no ALICE 3 e possibilidades futuras de contribuição brasileira para tecnologias relacionadas ao Future Circular Collider (FCC), projeto de um possível sucessor do LHC.

 

Reunião entre o MCTI e o CERN, que contou com a participação do Prof. Marcelo Munhoz do HEPIC (ao fundo, à esquerda)

Outro destaque da participação do HEPIC foi o lançamento do livro “Cruzando Fronteiras: uma História do Brasil no CERN”. Organizada pelo pesquisador Ivã Gurgel e produzida no âmbito do Grupo de Trabalho de Divulgação Científica do INCT CERN-Brasil e do Projeto Especial da FAPESP “Física e Instrumentação de Altas Energias com o LHC-CERN”, a obra recupera a trajetória de décadas de participação brasileira no laboratório e está disponível gratuitamente em português e inglês neste link [https://www.letraria.net/cruzando-fronteiras/].

A relação completa das contribuições dos membros do HEPIC durante a ICHEP 2026 encontra-se no final desta matéria. 

O LHC pós-Natal

A edição brasileira da ICHEP aconteceu em um momento de transição para o maior acelerador de partículas do mundo. Pouco mais de um mês antes da conferência, o LHC encerrou o Run 3 e entrou em seu terceiro período de longa parada, o Long Shutdown 3 (LS3). Durante esse período, o acelerador e seus experimentos passarão por um amplo programa de manutenção e atualização que prepara o caminho para o High-Luminosity LHC (HiLumi LHC).

Com início de operação previsto para 2030, o HiLumi LHC deverá aumentar em até dez vezes a luminosidade do colisor em relação àquela prevista originalmente em seu projeto. Na prática, isso permitirá produzir conjuntos de dados muito maiores e realizar medições mais precisas de processos raros. O ATLAS está entre os experimentos que passarão por extensas modificações durante o LS3, incluindo novos sistemas de rastreamento, seleção de eventos e medição de tempo. Para o ALICE, os próximos anos também serão de atualização e planejamento. Enquanto a colaboração realiza trabalhos no detector durante o LS3 e continua a analisar os dados do Run 3, o desenvolvimento do ALICE 3 projeta uma etapa posterior da pesquisa com íons pesados, prevista para o Run 5 do LHC.

Depois da passagem inédita pelo país, a ICHEP seguirá para a Ásia: a próxima edição está prevista para 2028, em Bangkok, na Tailândia, tendo como sede a Universidade Chulalongkorn.

Lista de contribuições dos membros do HEPIC na ICHEP 2026

Bruno Basso Manzato - Construction and test of a position-sensitive Muon detector using wavelength-shifting (WLS) optical fibers
https://indico.cern.ch/event/1522800/contributions/6981090/

Daniel Neves Fachieri - Gas Flow Optimization for Environmental Robustness in GEM-based Detectors
https://indico.cern.ch/event/1522800/contributions/6986984/ 

Jhoao Gabriel Martins Campos de Almeida Arneiro - Deep Learning Methods for Jet Tagging and Process Classification Using Image Processing
https://indico.cern.ch/event/1522800/contributions/6981250/

Leonardo Lima da Silva - Jet Quenching Identification in Simulated Pb–Pb Collisions Using Jet Substructure and Machine Learning Techniques
https://indico.cern.ch/event/1522800/contributions/6987094/

Levi Louro Stahl - Analysis of Particle Identification Performance Using Time-of-Flight for the Future ALICE 3 Detector
https://indico.cern.ch/event/1522800/contributions/6986998/

Lucas Ferrandi de Oliveira - Measurement of the J/ψ Fragmentation Function in pp Collisions at √s = 13.6 TeV with ALICE
https://indico.cern.ch/event/1522800/contributions/6982733/

Luis Eduardo Funo de Moura França -  Physics results of the COSINE-100 experiment and status of the upgraded COSINE-100U detector https://indico.cern.ch/event/1522800/contributions/6982930/ 

Luis Eduardo Funo de Moura França - Measurement of the underground muon flux at Y2L and Yemilab with the COSINE-100 and COSINE-100U experiments https://indico.cern.ch/event/1522800/contributions/6981095/ 

Marcelo Munhoz - ALICE 3: a next-generation heavy-ion detector for LHC Run 5
https://indico.cern.ch/event/1522800/contributions/6986677/

Marcelo Munhoz - CERN - Brazil Exhibition and the Educational Objectives for Scientific Formation in Brazilian Public Schools

https://indico.cern.ch/event/1522800/contributions/6987361/

Marcelo Munhoz - IUPAP C11 Report

https://indico.cern.ch/event/1522800/contributions/7069992/ 

Marco Aurelio Lisboa Leite - The ATLAS High-Granularity Timing Detector for the HL-LHC: project status and results
https://indico.cern.ch/event/1522800/contributions/6987050/

Marco Bregant - ALICE Forward Calorimeter upgrade (FoCal): physics program and expected performance
https://indico.cern.ch/event/1522800/contributions/6986700/

Marco Bregant - Development and test of a small-scale readout system based on the SAMPA ASIC
https://indico.cern.ch/event/1522800/contributions/6982881/

Maria Paula Martins Palhares - Probing hypernucleosynthesis at the LHC with ALICE
https://indico.cern.ch/event/1522800/contributions/6987125/

Maria Paula Martins Palhares - Diversity and inclusion efforts in the ALICE Collaboration
https://indico.cern.ch/event/1522800/contributions/6961676/

Pedro da Costa Huot - Comparative study of machine learning algorithms for hypernuclei identification in simulated heavy-ion collisions
https://indico.cern.ch/event/1522800/contributions/6981180/

Vitor Hugo de Almeida Machado - Searching for MIMPs with the COSINE-100 experiment https://indico.cern.ch/event/1522800/contributions/6982963/ 

Yuri do Nascimento Lima - Charged-particle multiplicity distribution in high energy p-O collisions
https://indico.cern.ch/event/1522800/contributions/6987111/

Yuri do Nascimento Lima - Heavy and exotic hadron production at forward rapidities in high-energy proton-proton collisions
https://indico.cern.ch/event/1522800/contributions/6982738/ 

 


 


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