
Publicado por kmatsui em qua, 15/04/2026 - 16:08
O Projeto de Extensão CELESTE surgiu por idealização do pesquisador do HEPIC Marco Leite em conjunto com Marisilvia Donadelli, atualmente docente da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Ambos são colaboradores do Experimento ATLAS do LHC(Large Hadron Collider), e trouxeram para o Brasil uma experiência marcada pela forte cultura de divulgação científica presente no CERN.
A trajetória de Donadelli influenciou nesse processo. Durante sua formação, que incluiu o doutorado na USP e pós-doutorado na colaboração ATLAS, ela teve contato direto com práticas consolidadas de comunicação científica. No CERN, a divulgação científica (DC) não é só incentivada, é também parte integrante da atividade científica.
“Desde o início da atividade no ATLAS, fazer a DC é um dos pilares do nosso experimento. Você como pesquisador da colaboração, não é obrigado a participar da DC, mas era comum o escritório de relações internacionais, por exemplo, nos convidar para fazermos visitas técnicas para visitantes no experimento (...). Estando baseada no CERN, eu consegui perceber essa questão da cultura de espaços de ciência mesmo, isso é muito forte”, relata a pesquisadora.
Esse compromisso se refletiu no cotidiano dos pesquisadores envolvidos. Além da pesquisa, que inclui desenvolvimento de detectores, instrumentação e análise de dados, a divulgação científica passou a ocupar um papel central, ao lado do ensino.
Os Masterclasses
Uma das primeiras iniciativas nesse sentido foi a participação nas atividades dos Masterclasses Hands On Particle Physics voltadas para o experimento ATLAS. Essa atividade consiste em um encontro internacional anual entre estudantes do ensino médio de diversas partes do mundo organizado pelo CERN, com o intuito de trazer grupos de alunos do Ensino Médio para espaços de produção da ciência, por meio de atividades que utilizam dados originais provenientes de experimentos.
Durante os eventos, os alunos participam de palestras introdutórias, analisam dados reais de experimentos e, ao final, discutem seus resultados em videoconferências com pesquisadores do CERN. A experiência vai além do conteúdo técnico: promove também o contato direto com cientistas e estimula a participação ativa dos estudantes.
“Uma coisa que nos surpreendeu foi a vontade dos alunos de participarem das videoconferências. Isso me impressionava muito, a disposição dos alunos de participar da videoconferência, mesmo com escolas públicas, que tem um ensino de inglês mais precarizado…“Eles diziam quais perguntas queriam fazer, sentávamos com eles para treinarem o inglês e iam, com a cara e coragem. Eu não achava que eles tinham essa disposição para se exporem”
Com o tempo, os organizadores perceberam a necessidade de tornar as atividades mais concretas. Para isso, foram incorporados materiais físicos, objetos que fazem parte do processo de coleta de dados de um experimento desse porte.
“Começamos a pegar um pedaço de cintilador, uma fotomultiplicadora, a gente começou a pegar uns elementos chaves e explicar para eles alguns desses processos…O que a gente sentia falta era dessa parte do experimento, aí vou estar puxando a sardinha para o nosso lado, porque nós somos físicos experimentais, mas sentíamos falta de falarmos do detector de verdade.”

Imagem: Imagem de feixe de luz atravessando um cintilador
O uso dessas tecnologias em outros campos também é exaltado nessas atividades, mostrando a interdisciplinaridade com outros campos da ciência.
“Procurávamos explicar que a tecnologia dos detectores é a base para qualquer exame em medicina nuclear, por exemplo, se você for fazer uma tomografia por pósitrons, por exemplo.”
Inspiração para a criação do CELESTE
Marco Leite, pesquisador do HEPIC, já tinha um rascunho de um detector simples e de baixo custo para ser construído. A experiência com os Masterclasses se repetiu por aproximadamente 2 anos, e houve uma virada de chave quando o pesquisador formalizou a ideia de um protótipo de detector.
A ideia de um detector simples e barato não é inovadora, já que existem diversos detectores e iniciativas do tipo espalhadas pelo mundo. Porém, a diferença é que em vez de comprar um detector pronto, esse rascunho era um protótipo feito para que professores compreendessem o seu funcionamento , juntamente com os alunos, permitindo a montagem e a coleta dos dados nas próprias escolas, inspirado em um projeto italiano, chamado Extreme Energy Event.
A ideia central do projeto é que detectores de baixo custo sejam montados nas escolas, diferentemente do projeto italiano, contribuindo com o processo pedagógico, cobrindo uma demanda das escolas, que muitas vezes não têm acesso a laboratórios. Assim é possível promover um ambiente científico vivo, com uma ampla gama de explorações: desde a matemática, como na geografia, já que também funciona como estação metereológica. Além de criar uma rede em território nacional, que troque informações e se una para a produção de pesquisas.
Imagem: Placa de processamento de um dos detectores do CELESTE.
Com o protótipo do detector, o projeto CELESTE passou a realizar diversos encontros com alunos da região de São Paulo fazendo uso de detectores que foram sendo melhorados.
Além disso, a experiência com os detectores pode ajudar os alunos a terem contato com a organização, análise de dados, discussão sobre resultados, podendo ser utilizado para uma série de demonstrações de circuito simples, e outras demandas que podem vir dos professores, com uma ação dinâmica.
Vínculos com escolas e desafios
Donadelli destaca que é essencial ter conexão com os alunos por meio do contato com os professores de escolas ao redor de São Paulo. Com a ideia de oferecer um projeto a longo prazo, que não seja “apenas” uma ação de um dia com os alunos, observou-se que o contato com professores engajados com o ensino de Física de Partículas era essencial para criar uma ponte e uma fonte de vínculo entre o CELESTE e as escolas de São Paulo.
Imagem: Atividade do Projeto CELESTE com escolas
No entanto, a consolidação do projeto depende de um fator essencial: o vínculo com as escolas. Segundo Donadelli, a continuidade das ações está diretamente ligada ao engajamento dos professores.
“No CERN tem um próprio centro de física, na nossa realidade nós devemos ir para as escolas. Precisamos de canais com os professores, um vínculo, se um deles sai da escola, outro se aposenta, o projeto acaba.”
Diferentemente dos espaços da Europa, ou até mesmo da estrutura do CERN, que conta com centros dedicados à divulgação científica, o projeto CELESTE precisa ir até as escolas. Esse movimento reforça a importância de redes colaborativas e do contato direto com educadores.
Mais do que ensinar física de partículas, o projeto busca democratizar o acesso à ciência e aproximar os estudantes do processo científico. Em um cenário de desigualdade no acesso a recursos educacionais, iniciativas como o CELESTE mostram que é possível levar a ciência de ponta para dentro da sala de aula e despertar novos olhares para o conhecimento.
Mais informações:
https://www1.fisica.org.br/ippog/?q=international-masterclasses-hands-particle-physics
