Sobre o evento:
As partículas atmosféricas de aerossóis desempenham um papel fundamental na formação de nuvens, na dinâmica da precipitação e na regulação dos ciclos de energia e água na Terra. Na floresta amazônica, as emissões biogênicas de compostos orgânicos voláteis impulsionam a formação de novas partículas, influenciam o ciclo do carbono e modulam a microfísica das nuvens. Esses processos estão fortemente acoplados à convecção, que, por sua vez, afeta a fotossíntese, a química atmosférica e as complexas interações físico-químicas na interface floresta-atmosfera. No entanto, esse equilíbrio delicado está sob pressão crescente. A Amazônia está atualmente exposta a duas forçantes antropogênicas dominantes: as mudanças climáticas globais e o desmatamento, que atuam conjuntamente redefinindo o clima, ecossistemas e biodiversidade da Amazonia Amazônia. Esta apresentação explora como essas duas ameaças estão perturbando os ciclos naturais em múltiplas escalas no ambiente Amazônico. Iniciamos com uma visão geral da Amazon Tall Tower Observatory (ATTO), um local de pesquisa-chave que tem fornecido dados sem precedentes sobre as interações floresta-atmosfera no coração da Amazônia. Em seguida, apresentamos os padrões espaciais e temporais do desmatamento na região, destacando as regiões chaves e as tendências ao longo das últimas décadas. A seguir, examinamos o transporte de longa distância de poeira do Saara e de particulados de queimadas da África e como está sendo alterado esses padrões de transporte que afetam a fertilidade do solo e a resiliência dos ecossistemas. Em seguida, apresentamos os impactos das mudanças climáticas e do desmatamento sobre o clima regional, com foco na intensificação e no aumento da duração da estação seca. Aprofundamos ainda como mudanças na convecção e nos padrões de precipitação influenciam as concentrações de aerossóis e gases traços tanto na camada limite como na troposfera superior, e como o desmatamento altera esses processos ao modificar as emissões de superfície e a estabilidade atmosférica. Também discutimos o papel dos bioaerossóis, como bactérias, esporos e fungos, na biodiversidade e a sensibilidade às mudanças no uso da terra e aumento da temperatura. Por fim, apresentamos evidências de que emissões antrópicas estão modificando as distribuições de tamanho e a concentração de gotas de nuvens, com implicações para a eficiência da precipitação e o ciclo de vida das nuvens. Essas mudanças podem reduzir a precipitação e agravar ainda mais o estresse sobre a floresta. Esta apresentação sintetiza evidências multidisciplinares para ilustrar que mudanças climáticas e desmatamento não são ameaças isoladas, mas são forçantes que interagem não linearmente e que estão transformando o sistema climático da Amazônia, com consequências profundas para o seu futuro.
Minibiografia do palestrante:
O Prof. Luiz Augusto Toledo Machado possui graduação e mestrado em Meteorologia pela Universidade de São Paulo (1981, 1984) e doutorado pela Université de Paris VI (1992). Foi pesquisador visitante na NASA/GISS, nos EUA e no Laboratoire de Météorologie Dynamique (LMD), França. Após a aposentadoria do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) em 2020, continua ativo como pesquisador no Instituto de Física da Universidade de São Paulo e como pesquisador visitante no Max Planck Institute for Chemistry. Seu trabalho de pesquisa concentra-se em sensoriamento remoto, processos de nuvens e convecção tropical, com ênfase particular na região Amazônica. Tem desempenhado papel de liderança em campanhas de campo e projetos internacionais de grande escala, contribuindo para avanços no entendimento de sistemas de precipitação, interações aerossol-nuvem e processos atmosféricos em ambientes tropicais. Possui uma carreira científica com mais de cem publicações em revistas científicas revisadas por pares, de alto impacto e ampla colaboração em redes internacionais de pesquisa. Supervisionou numerosos alunos de pós-graduação e pesquisadores pós-doutorais, além de ter contribuído para o desenvolvimento de sistemas de observação baseados em satélites. O Prof. Machado ocupou cargos de liderança em programas nacionais e internacionais, foi Diretor do CPTEC e recebeu diversos prêmios e reconhecimentos, incluindo distinções do WMO, da NASA.
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