Sobre Marcos Nogueira Martins
por Alessio Mangiarotti
O Prof. Marcos Nogueira Martins percorreu, ao longo de mais de 50 anos, uma trajetória de dedicação ao Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IFUSP) e ao avanço da física nuclear e da gestão pública de ciência e tecnologia no Brasil. A sua aposentadoria marca a transição de uma vida acadêmica e pública exemplar, construída ao longo de décadas de trabalho rigoroso, liderança institucional e uma convivência que deixou marcas definitivas em colegas, colaboradores e gerações de estudantes.
Sua trajetória científica, iniciada como especialista de reações fotonucleares sob a orientação da Profa. Elisa Wolynec, tem como marco principal sua atuação decisiva no projeto, construção e desenvolvimento do Microtron do IFUSP, um acelerador de elétrons recirculado. Como liderança à frente do Laboratório do Acelerador Linear (LAL), o Prof. Marcos esteve diretamente envolvido no projeto de óptica de feixes, nos sistemas magnéticos dos dipolos e na instrumentação da máquina. Sua visão permitiu dotar o Instituto de uma infraestrutura singular para a realização de experimentos avançados com feixes contínuos de elétrons, abrindo a possibilidade para medições de grande precisão nos processos fundamentais de interação da radiação com a matéria e na física aplicada, no estado e no país.
Para além dos laboratórios e das salas de aula, - nos quais orientou dezenas de trabalhos de Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado, cujos impactos vão muito além de meras estatísticas ou contagens de publicações —, o Prof. Marcos sempre colocou sua capacidade analítica e de liderança a serviço da sociedade. Sua vocação para a gestão científica manifestou-se no Instituto como Chefe de Departamento, Vice-Diretor e Diretor do IFUSP, e também na USP, como Coordenador da Agência USP de Inovação, com alcances regionais e nacionais.
Essa contribuição atingiu o âmbito das políticas públicas ao atuar como Diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), onde exerceu papel fundamental na gestão, regulação e fortalecimento do setor nuclear brasileiro. Cabe relembrar seus esforços para a viabilização do Reator Multipropósito Brasileiro (MBR). Mais recentemente, passou a integrar a gestão estadual ao assumir a posição de Coordenador na Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (SCTI) do Estado de São Paulo, atuando na articulação do ensino técnico e superior, na promoção do ecossistema de inovação paulista e na ponte entre o conhecimento gerado na academia e o desenvolvimento tecnológico e social.
Minha convivência com ele, iniciada em 2013 como professor recém-contratado do IFUSP, não pôde ser tão longa quanto eu gostaria. Lembro dele como um líder de grande equilíbrio, penetrante nas críticas e extremamente justo: nunca o vi antepor seus próprios interesses, ou do seu grupo, aos coletivos da instituição.
Em um campo que articula de forma tão harmoniosa o rigor da física experimental, a formação humana e a liderança de políticas públicas, é inconcebível abrir mão de sua vasta experiência teórica, prática e institucional. Por isso, expressamos nosso desejo de continuar contando com sua convivência, suas reflexões e sua generosa colaboração nos corredores, fóruns e laboratórios do Instituto. Que esta nova etapa da aposentadoria não signifique um afastamento definitivo, mas a continuidade de um vínculo precioso, construído ao longo de uma vida inteira dedicada à física e ao nosso país.
