Gil da Costa Marques - Carreira científica


Nesta entrevista especial do canal Ciência com o Grupo Mário Schenberg, conversamos com Gil da Costa Marques, físico teórico, professor titular da Universidade de São Paulo, pesquisador, gestor universitário, autor de livros didáticos e divulgador científico. Ao longo da conversa, percorremos sua trajetória pessoal, acadêmica e científica, desde a infância em Minas Gerais e sua formação na USP até a pesquisa em teoria quântica de campos, a liderança de importantes instituições científicas, a direção do Instituto de Física da USP e sua dedicação à formação de professores e ao ensino de Física.
 
Gil da Costa Marques nasceu em 19 de fevereiro de 1946, em Piraúba, então distrito pertencente ao município de Rio Pomba, em Minas Gerais. Cursou o antigo ginásio no Instituto Petropolitano de Ensino, em Petrópolis, entre 1958 e 1961, e o curso científico no Instituto Adventista de Ensino, em São Paulo, entre 1962 e 1964. Em 1965, ingressou no curso de Física da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, concluindo o bacharelado em 1969.
Sua formação coincidiu com um período decisivo para a consolidação da física teórica, nuclear e de partículas no Brasil. Em 1970, apenas um ano após a graduação, foi contratado como auxiliar de ensino do recém-organizado Instituto de Física da USP, iniciando uma trajetória de mais de cinco décadas ligada à instituição. No IFUSP, concluiu o mestrado em 1972 e o doutorado em 1975, sob a influência e orientação científica de Jorge André Swieca, um dos mais importantes físicos teóricos que trabalharam no Brasil no século XX.
 
A formação recebida na escola científica de Swieca conduziu Gil ao estudo da teoria quântica de campos, da física das partículas elementares, das simetrias e das leis de conservação. Sua pesquisa concentrou-se em grupo de renormalização, comportamento assintótico das teorias de campos, equações de Callan–Symanzik, quebra e restauração de simetria e transições de fase. Esses temas são fundamentais para compreender como as interações se modificam em diferentes escalas de energia, como surgem massas e estados físicos a partir da quebra espontânea de simetria e como determinadas simetrias podem ser restauradas em condições extremas de temperatura ou densidade.
 
Durante sua formação e nos primeiros anos da carreira, Gil realizou atividades de pesquisa em importantes instituições internacionais. Entre 1972 e 1973, esteve na University of Maryland e, entre 1973 e 1974, na New York University. Em 1980, realizou estágio científico no CERN, em Genebra, um dos maiores centros mundiais de física de partículas. Entre 1981 e 1982, desenvolveu atividades nas universidades de Berlim e Bonn, na Alemanha. Mais tarde, entre 1993 e 1994, realizou pesquisas na Texas A&M University, nos Estados Unidos. Essas experiências ampliaram sua inserção internacional e o aproximaram de diferentes grupos dedicados à teoria quântica de campos, à física nuclear e às partículas elementares.
 
Sua progressão acadêmica no Instituto de Física da USP foi marcada pela obtenção da livre-docência em 1983, pela ascensão ao cargo de professor adjunto em 1986 e pela chegada ao posto de professor titular em 1987. Como docente, ministrou disciplinas básicas e avançadas, formou estudantes, participou de bancas e contribuiu para a organização acadêmica do instituto. Com o passar do tempo, sua atuação ultrapassou a pesquisa especializada e passou a abranger a gestão universitária, a política científica, a inovação tecnológica, a produção de materiais didáticos e a educação a distância.
 
Entre 1987 e 1991, Gil da Costa Marques presidiu a Sociedade Brasileira de Física durante dois mandatos consecutivos. Sua gestão ocorreu em um período de redemocratização do país, reorganização das políticas públicas e intensos debates sobre financiamento da ciência, autonomia universitária, liberdade acadêmica, formação de pesquisadores e valorização dos professores de Física. À frente da SBF, participou da articulação nacional da comunidade científica e da promoção de encontros, publicações e iniciativas voltadas ao fortalecimento da Física brasileira.
 
Sua liderança estendeu-se ao contexto internacional. Entre 1989 e 1992, presidiu a Federación Latinoamericana de Sociedades de Física, contribuindo para a cooperação entre pesquisadores, universidades e sociedades científicas da América Latina. Também participou de organizações científicas pan-americanas e manteve vínculos com a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a American Physical Society e outras entidades dedicadas ao desenvolvimento e à divulgação da ciência.
 
Gil da Costa Marques foi eleito membro associado da Academia Brasileira de Ciências em meados da década de 1990, reconhecimento relacionado à sua produção em física teórica e à sua contribuição para a organização da comunidade científica. Algumas fontes registram sua eleição em 1994 e outras sua posse em 1995.
Outro capítulo fundamental de sua trajetória foi a direção do Instituto de Física da USP. Gil dirigiu o IFUSP em dois períodos: de fevereiro de 1994 a fevereiro de 1998 e de fevereiro de 2002 a fevereiro de 2006. Foram aproximadamente oito anos à frente de uma das maiores instituições de ensino e pesquisa em Física da América Latina.
 
Como diretor, participou da administração de departamentos, laboratórios, cursos, infraestrutura, recursos humanos e projetos acadêmicos. Também esteve envolvido em debates sobre planejamento, financiamento, modernização administrativa, tecnologia e inserção internacional. Essa experiência resultou no livro IFUSP: passado, presente e futuro, publicado em 2005, no qual refletiu sobre a história, a estrutura, as realizações e os desafios do Instituto de Física.
Gil também se envolveu em iniciativas de planejamento e modernização da tecnologia da informação nas universidades públicas. Essa atuação deu origem a publicações como Planejamento Estratégico para TI na USP, de 2007, Gestão de TI nas Universidades Públicas de São Paulo, de 2008, e Crimes Digitais, organizado em 2011 com Marcelo Crespo. Esse conjunto mostra a amplitude de seus interesses, que se estendem dos fundamentos da matéria e das interações elementares às questões de infraestrutura digital, governança tecnológica, segurança e gestão universitária.
 
Nas últimas décadas, o ensino de Física passou a ocupar posição central em sua atividade. Gil dedicou-se à produção de materiais para estudantes universitários, professores e cursos das áreas de ciências e engenharias. Sua abordagem didática procura ir além da aplicação mecânica de fórmulas, enfatizando a origem histórica, o significado físico e a estrutura matemática dos conceitos.
 
Seus livros discutem de maneira aprofundada temas como espaço, tempo, referenciais, massa, força, energia, campo, gravitação, coordenadas generalizadas, oscilações, ondas, termodinâmica, fluidos, eletricidade e magnetismo. Uma característica de sua produção didática é recuperar conceitos frequentemente apresentados de maneira muito rápida nos cursos universitários, mostrando as conexões entre matemática, experimentação e interpretação física.
Em 2014, publicou pela Edusp Mecânica Clássica para Professores, obra voltada à formação conceitual e matemática de docentes. No mesmo período, publicou Mecânica para Ciências, Eletromagnetismo para Ciências e Fundamentos de Matemática I. Com Vanderlei Salvador Bagnato e Sérgio Ricardo Muniz, escreveu Fundamentos de Matemática II.
 
Em 2018, publicou Física Universitária 1: Mecânica Básica, no qual aborda movimento, espaço, tempo, massa, leis de Newton, gravitação, trabalho, energia e forças conservativas. Em 2019, publicou, com Luiz Nunes de Oliveira e Valdir Bindilatti, Física Universitária 2: Oscilações e Ondas, Termodinâmica, Mecânica dos Fluidos. Essas obras foram concebidas como apoio a estudantes dos ciclos básicos de cursos científicos e tecnológicos.
 
Gil da Costa Marques também se tornou um dos professores da USP mais envolvidos com a educação superior a distância. Coordenou a Licenciatura em Ciências Naturais da USP e participou da coordenação da Licenciatura em Física da Universidade Virtual do Estado de São Paulo, a Univesp. Nessas iniciativas, colaborou na elaboração de programas, preparação de textos, produção de videoaulas, planejamento de atividades e formação inicial e continuada de professores.
A Licenciatura em Ciências da USP procurou desenvolver uma visão integrada das ciências naturais, aproximando Física, Química, Biologia e Ciências da Terra. Na Univesp, sua atuação contribuiu para levar a formação universitária em Física a estudantes de diferentes regiões do estado de São Paulo. Muitas de suas aulas sobre mecânica, gravitação, óptica, termodinâmica e eletromagnetismo permanecem disponíveis em plataformas digitais da USP, ampliando o alcance de seu trabalho para além da sala de aula presencial.
 
A divulgação científica constitui outra dimensão importante de sua carreira. Em Do que tudo é feito, publicado pela Edusp em 2010, Gil apresenta ao público a busca histórica pelos constituintes fundamentais da matéria. A obra percorre a passagem das antigas concepções de átomo para a física moderna, discutindo elétrons, prótons, nêutrons, núcleos, quarks, partículas elementares e campos quânticos.
Sua maneira de divulgar a ciência evita apresentá-la como uma coleção de verdades prontas. Em seus livros, palestras e aulas, a ciência aparece como um processo de construção, questionamento, experimentação, elaboração matemática e revisão de ideias. Gil também participou de entrevistas e projetos de preservação da memória científica, incluindo o programa Memórias IFUSP, que registrou sua trajetória de mais de cinquenta anos ligada ao Instituto de Física.
 
Além das obras didáticas, publicou e organizou livros sobre ciência, instituições e política científica, entre os quais Física: tendências e perspectivas, IFUSP: passado, presente e futuro, Planejamento Estratégico para TI na USP, Gestão de TI nas Universidades Públicas de São Paulo, Do que tudo é feito e Crimes Digitais. O conjunto revela um pesquisador interessado não apenas na produção do conhecimento, mas também nas condições institucionais, tecnológicas e educacionais necessárias para que a ciência se desenvolva.
 
A carreira de Gil da Costa Marques reúne quatro grandes dimensões. A primeira é a pesquisa em física teórica, especialmente teoria quântica de campos, grupo de renormalização, comportamento assintótico, quebra espontânea de simetria e transições de fase. A segunda é a liderança científica, expressa em suas presidências da Sociedade Brasileira de Física e da Federação Latino-Americana de Sociedades de Física. A terceira é a gestão universitária, marcada por seus dois mandatos como diretor do IFUSP e por sua atuação em planejamento tecnológico. A quarta é a educação científica, materializada em livros, cursos, videoaulas, formação de professores e projetos de ensino a distância.
Gil pertence a uma geração que participou da consolidação da pesquisa brasileira em física de partículas, do fortalecimento das sociedades científicas, da expansão da pós-graduação e da incorporação das tecnologias digitais ao ensino superior. Sua passagem da pesquisa especializada para a produção didática representa uma continuidade: a mesma preocupação com os fundamentos e a clareza conceitual presente em seus estudos de teoria de campos orienta sua maneira de ensinar mecânica, matemática, eletromagnetismo, gravitação e física moderna.
 
Nesta entrevista, discutimos sua infância e formação, a influência de Jorge André Swieca, as pesquisas em teoria quântica de campos, suas experiências nos Estados Unidos, na Alemanha e no CERN, sua carreira no Instituto de Física da USP, as presidências da Sociedade Brasileira de Física e da Federação Latino-Americana de Sociedades de Física, os dois mandatos como diretor do IFUSP, sua atuação em tecnologia da informação, sua dedicação ao ensino presencial e a distância, seus livros e os grandes desafios da formação científica no Brasil.
 
Texto: Manuel Eleuterio Rodrigues

 

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