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Cientistas descobrem características anômalas de condutividade térmica em bismutato de bário

Pesquisa apoiada pela FAPESP revela mecanismos inéditos que podem revolucionar o uso de óxidos funcionais em tecnologias de isolamento térmico e dispositivos termoelétricos
Por Agência FAPESP. 
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Pesquisadores do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) descobriram que o cristal de bismutato de bário (BaBiO3) apresenta condutividade térmica tão baixa quanto a de um vidro, apesar de sua estrutura ordenada. [...]

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Experimento histórico reacende sonho da energia das estrelas

Quando a fusão nuclear cruzou uma fronteira histórica. 
Em Revista Amazônia, 21/01/26. Acesse AQUI.

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Em dezembro de 2022, um anúncio feito em Washington atravessou rapidamente os círculos científicos e alcançou o debate público global. Pela primeira vez, um experimento de fusão nuclear conseguiu produzir mais energia do que aquela diretamente empregada para provocar a reação. O feito ocorreu no Laboratório Nacional Lawrence Livermore, nos Estados Unidos, dentro da National Ignition Facility, a maior e mais potente instalação de lasers do mundo. O marco recebeu o nome técnico de ignição por fusão e foi celebrado como uma prova de que a humanidade é capaz, ao menos em laboratório, de reproduzir o processo que alimenta o Sol. [...]

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* Matéria com participação do pesquisador Gustavo Canal.

Artigo | Steady-state heat engines driven by finite reservoirs

Dos autores Iago N. Mamede, Saulo V. Moreira, Mark T. Mitchison e Carlos E. Fiore. 
Publicado em Physical Review E, em 13/01/26. Acesse AQUI.
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Resumo (traduzido do artigo):
Apresentamos uma análise termodinâmica consistente de motores térmicos estocásticos acionados por reservatórios de tamanho finito, os quais, por sua vez, estão acoplados a reservatórios de tamanho infinito. Consideramos um modo de operação cíclico, no qual o fluido de trabalho acopla-se sequencialmente a reservatórios quentes e frios, e um modo contínuo com ambos os reservatórios acoplados simultaneamente. Derivamos uma temperatura efetiva para os reservatórios de tamanho finito que determina a produção de entropia para motores de dois estados no cenário de acoplamento sequencial e mostramos que reservatórios de tamanho finito podem afetar significativamente a potência quando comparados a reservatórios de tamanho infinito, tanto em cenários de acoplamento sequencial quanto simultâneo. Também investigamos um motor de três estados composto por duas unidades interagindo e otimizamos seu desempenho na presença de um reservatório finito. Notavelmente, mostramos que a eficiência na potência máxima pode exceder o limite de Curzon-Ahlborn com reservatórios finitos. Nosso trabalho introduz ferramentas para otimizar o desempenho de motores em nanoescala sob condições realistas de capacidade térmica finita do reservatório e isolamento térmico imperfeito.

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Estudantes do IFUSP se destacam no Brazilian Physicists Tournament e consolidam participação em competição científica nacional

Aumento no número de integrantes no grupo, reforço nos processos de estudo e segundo lugar conquistado pela equipe da USP é resultado de um processo de institucionalização no preparo para o torneio. 
Com informações da equipe "The Wronskians".

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A equipe de estudantes do Instituto de Física da USP ficou em segundo lugar no Brazilian Physicists Tournament 2025 (BPT), competição acadêmica que simula, em formato de torneio, o trabalho de investigação científica. A oitava edição do evento reuniu sete universidades brasileiras e foi realizado no Rio de Janeiro, nas instalações do IMPATECH, centro de ensino e pesquisa do IMPA.

O BPT é estruturado em rodadas conhecidas como physics fights, nas quais três equipes participam simultaneamente, assumindo papéis distintos. Em cada rodada, uma equipe atua como apresentadora, responsável por expor a investigação científica desenvolvida sobre um dos problemas propostos pelo torneio; outra equipe assume o papel de opositora, questionando métodos, hipóteses e conclusões apresentadas, enquanto a terceira atua como moderadora, conduzindo o debate e garantindo o cumprimento das regras e do tempo. As equipes são avaliadas em cada um desses papéis por uma banca de jurados.

A escolha dos problemas apresentados não é livre: cabe à equipe opositora definir qual problema será defendido pela equipe apresentadora, o que introduz um forte componente estratégico à competição. Ao longo do torneio, as equipes precisam demonstrar domínio teórico, qualidade experimental, clareza de comunicação e capacidade de argumentação científica.

A competição ocorre ao longo de três dias. Nos dois primeiros, as equipes das universidades se enfrentam em diferentes rodadas, alternando os papéis de apresentação, oposição e moderação. As três equipes melhor colocadas avançam para a etapa final, disputada no terceiro dia: ela tem peso maior na pontuação e pode alterar significativamente a classificação geral.

Nesta rodada decisiva, o time USP teve atuação excepcional, obtendo as maiores notas da final nos três papéis avaliados: apresentação, oposição e moderação — evidenciando domínio completo do formato e das exigências da competição. A pontuação final refletiu o alto nível da disputa: a diferença entre as três equipes finalistas foi de apenas alguns pontos.

O excelente resultado reflete mudanças estruturais importantes implementadas ao longo do último ano. Pela primeira vez, a preparação para o torneio contou com uma disciplina formal, oferecida ao longo do semestre e coordenada pelo professor Germano Penello, com a colaboração do pesquisador associado Rodrigo Benevides. A iniciativa ampliou significativamente o número de estudantes envolvidos e garantiu maior continuidade, organização e profundidade no trabalho desenvolvido.

Outro diferencial foi a presença, no time, de estudantes que já haviam participado de competições científicas semelhantes no ensino médio, o que trouxe experiência estratégica e segurança nas apresentações. A equipe final foi definida por meio de um processo seletivo interno, baseado em apresentações e avaliações conjuntas de estudantes veteranos e docentes.

O desempenho no BPT também evidenciou a importância do apoio institucional. A equipe contou com a colaboração fundamental do Laboratório Didático e do Laboratório de Demonstrações, em especial com o apoio técnico do físico Cláudio Furukawa, que auxiliou no desenvolvimento e aprimoramento dos experimentos ao longo da preparação.

Mais do que uma competição, o BPT reproduz de forma intensa e dinâmica o processo científico real: hipóteses são formuladas, testadas, questionadas, reformuladas e defendidas publicamente. O excelente desempenho do Instituto de Física nesta edição confirma o amadurecimento da equipe e consolida a participação no torneio como uma experiência formativa de alto impacto na graduação.

Equipe

  • Artur Libanio de Araujo Yordaky (capitão)
  • Ana Beatriz Bandeira Martins
  • Gregory Almeida Dias do Rosário
  • Lívia Tiemi Bidoia de Freitas
  • Lorenzo Ferreira Cicoti
  • Ted Martins Paulo da Silva

 

Prof. Germano, Ted, Ana, Artur, Lorenzo, Lívia, Yasmim e Gregory. Foto: Arquivo pessoal.

UNESP | Curso de pós-graduação "Introdução à gravitação quântica"

Local: Faculdade de Engenharia e Ciências de Guaratinguetá
Período: Primeiro semestre de 2026 (com início em março)
Dias e horários de aulas: sábados [a cada três semanas] das 9h30 até 17h (com intervalos para café e almoço)

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Período de inscrição para alunos especiais: de 23/01/2016 até 26/01/2026
 
Ementa do curso:
  •     Motivações para quantizar a interação gravitacional;
  •     Gravitação quântica como uma teoria quântica de campos;
  •     Divergências UV e o problema da renormalizabilidade em gravitação quântica;
  •     Gravitação quântica como uma teoria efetiva: correção quântica para o potencial newtoniano e outros resultados;
  •     Visão geral sobre os diversos cenários de gravitação quântica;
  •     O cenário de segurança assintótica e o conceito de renormalizabilidade não-perturbativa;
  •     Grupo de renormalização funcional como uma ferramenta para explorar o cenário de segurança assintótica;
  •     Teorias de gravitação com matéria: possíveis conexões com fenomenologia de física de partículas;
  •     Gravitação quadrática: uma alternativa perturbativamente renormalizável e assintoticamente livre;
 
Avaliação: O método de avaliação será definido em conjunto entre docente e discentes durante a primeira aula do curso. 

 

O sonar brasileiro

Em A Terra é Redonda. Acesse AQUI.

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A história do sonar brasileiro, com seu componente “emprestado” e resgatado por um guia espiritual na Guarapiranga, revela o engenho e a espionagem à brasileira que marcaram o esforço de guerra nacional[...]

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Texto relata história de Paulus Aulus Pompéia, pesquisadores contemporâneos e trabalhos realizados no IFUSP.

Flutuações quânticas fazem emergir um novo tipo de semimetal topológico

Trabalho teórico e experimental descrito na Nature Physics amplia o repertório de fases exóticas da matéria.
Em Agência FAPESP, 19/01/26. 
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As chamadas “fases exóticas da matéria” constituem, hoje, importante foco de atenção da pesquisa científica. Por dois motivos: do ponto de vista da ciência básica, elas compõem um continente quase inexplorado da física quântica; do ponto de vista da ciência aplicada, são matrizes de tecnologias emergentes, entre elas, a computação quântica robusta[...]

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* Matéria destaca a pesquisa do Professor Julio Larrea Jiménez (IFUSP).

Novo modo de observar “dentro” da estrutura microscópica da água é descoberto por cientistas

É a primeira vez que o fenômeno de Decaimento Radiativo Intermolecular (IRD) é visto em líquidos; técnica permite sondar camada de íons em solução.
Em Jornal da USP, 15/01/26. 
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Aprofundar o conhecimento acerca da interação entre água e íons dissolvidos — como sódio e magnésio — é o objetivo de um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Uppsala, na Suécia, com participação da USP. A equipe desenvolveu uma técnica inédita de raios X, capaz de analisar o modo como a água se organiza ao redor de íons dissolvidos, em especial da primeira camada de solvatação (que envolve um íon em solução). A técnica possibilita a investigação de processos importantes, desde a física básica e química ambiental até aplicações industriais que dependem da química de soluções. [...]

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* Matéria destaca a pesquisa do Professor Lucas Cornetta (IFUSP).

Artigo | Radiation exposure assessment in interventional radiology: Staff personal dosimetry and radiation protection in percutaneous transhepatic cholangiography

Dos autores Isaías Petronis, Denise Y. Nersissian, Francisco S. Cancio, Nancy K. Umisedo e Elisabeth M. Yoshimura.
Publicado em Radiation Measurements, vol. 192, março 2026.
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Resumo:
Os procedimentos de radiologia intervencionista (RI) são a principal fonte de exposição à radiação para profissionais de saúde. A dosimetria pessoal é essencial para garantir o respeito aos limites de dose e a manutenção da radioproteção. Este estudo teve como objetivo estimar a dose média de radiação recebida pela equipe de saúde durante o procedimento de RI mais comum em um hospital universitário de São Paulo. A dose equivalente pessoal cumulativa, Hp(10), foi medida fora do avental de chumbo utilizando dosimetria termoluminescente (TL) em 57 procedimentos de colangiografia biliar transhepática percutânea, divididos em inserções e substituições de drenos biliares. Três radiologistas intervencionistas participam de cada procedimento, com funções e posições distintas ao redor do paciente. A dose efetiva por procedimento para as três funções dos radiologistas intervencionistas foi estimada. Para o radiologista intervencionista principal, os valores foram (54 ± 2) μSv e (32 ± 1) μSv na inserção primária e na substituição do dreno, respectivamente. Adicionalmente, como indicador de dose para o paciente, as medianas do produto kerma-área foram estimadas em 34,3 Gy cm² e 13,4 Gy cm² em inserções primárias e substituições de drenos, respectivamente. Sob condições controladas do equipamento, que simulam procedimentos clínicos com placas acrílicas, as leituras de TL mostraram fortes correlações lineares com as medições de uma câmara de ionização (R² = 0,979) e com o indicador de dose do equipamento. A relação esperada entre as doses para o paciente e a equipe foi confirmada, tanto em procedimentos clínicos quanto em condições controladas. Finalmente, com base nos resultados, foram feitas recomendações sobre radioproteção nesta instituição, visando reduzir a exposição tanto do paciente quanto da equipe durante este procedimento.

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Artigo | Emergent topological semimetal from quantum criticality

Emergent topological semimetal from quantum criticality
Dos autores D. M. Kirschbaum, L. Chen, D. A. Zocco, H. Hu, F. Mazza, M. Karlich, M. Lužnik, D. H. Nguyen, J. Larrea Jiménez, A. M. Strydom, D. Adroja, X. Yan, A. Prokofiev, Q. Si e S. Paschen.
Publicado em Nature Physics 2026. Acesse AQUI.

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Um estado quântico topológico emerge de uma transição de fase quântica
Sistemas metálicos se caracterizam pelo transporte de elétrons. Em metais convencionais, os estados quânticos desses elétrons sofrem processos dissipativos, o que limita a eficiência do transporte eletrônico. No entanto, simetrias particulares podem gerar estados quânticos protegidos, que suprimem mecanismos dissipativos. É esse o caso do estado quântico topológico Weyl-Kondo semimetal, que descobrimos emergir de uma transição de fase quântica contínua. Nossa descoberta avança no entendimento da conexão entre simetrias e flutuações quânticas e apresenta uma rota alternativa para realização de novos materiais com propriedades topológicas para aplicações em sensoriamento e computação quântica.

Figura 1. (Esquerda) Diagrama de fase esquemático em função da temperatura-pressão-campo magnético (T-p-B) que representa a emergência de um estado topológico quântico (Weyl semimetal), a partir de flutuações quânticas geradas por uma transição de fase quântica contínua ou Ponto Crítico Quântico (QCP). Adaptação da figura da revista Nature Physics

Figura 2. (Esquerda). Analogia do invariante topológico com o buraco (ou Genus) contido nas donut peruanas (ou picarones) e uma xícara de café. Estes objetos são topologicamente equivalentes diante de deformações enquanto o Genus se preserva. (Direita). Superior: Representação esquemática dos graus de liberdade orbital e de spin de um elétron, cujas funções de onda dentro de um cristal (rede cristalina) são descritas por simetrias que obedecem à topologia trivial. Nesta topologia não existe invariante que proteja os estados quânticos de processos dissipativos.  Inferior: Cartoon de um estado quântico topológico protegido pelo invariante (I), a curvatura fechada de Berry (linhas circulares tracejadas). Simetrias particulares são estabelecidas como uma topologia não trivial, formulando estados quânticos topológicos protegidos de dissipação.

Aprofundando o estudo das propriedades de simetrias, nos encontramos com o conceito na matemática chamado de topologia, a qual permite estabelecer os critérios para que objetos se classifiquem geometricamente equivalentes diante de deformações. Quando este conceito de topologia e simetrias se estende para a física quântica, a situação aparece mais interessante e fascinante, porém desafiadora de revelar. Por exemplo, a descrição da função de onda dos elétrons dentro de um material (ou cristal) obedece a um grupo de simetrias, ou topologia trivial. Como consequência, os elétrons dentro de um cristal são descritos a partir de sua ocupação dentro de bandas eletrônicas, uma representação da energia dos elétrons (E) em função de seu vetor de momento de onda (k) e, que considera como referência a sua energia mais alta de ocupação (ou nível de Fermi EF). O preenchimento destas bandas, definidas como as bandas de valência e de condução, obedece ao princípio de exclusão de Pauli (dois estados quânticos com o mesmo spin não podem ocupar o mesmo nível de energia). Desta forma, os elétrons dentro de um cristal adquirem o caráter de quasipartículas, também conhecidas como férmions. Esta organização em bandas eletrônicas permite definir os diferentes estados de transporte elétrico: isolante, condutor e semimetálico [ver figura 3]. Em qualquer destes estados eletrônicos dentro da topologia trivial, existe algo em comum: o transporte dos férmions ocorre de forma dissipativa, é dizer, perde energia durante o transporte [ver figura 3].

Figura 3. (Esquerda) Representação da quiralidade presente na enroscada das ramas de árvore. O enroscado acompanha o sentido de giro da mão direita e da mão esquerda, sem ter superposição entre elas. (Direita). Superior: Representação esquemática das bandas de energia para um semimetal convencional (topologia trivial) e um semimetal topológico ou Weyl semimetal (topologia não trivial). As regiões coloridas representam o preenchimento das bandas com elétrons (ou férmions), ocupando as energias até alcançar a energia Fermi (EF). Para o caso do Weyl semimetal, as bandas se cruzam em dois pontos, formando dois nodos no espaço do vetor de momento de onda k. Inferior: (esquerdo) Representação esquemática dos férmions em um semimetal convencional. Estas quasipartículas preservam sua massa, e seu transporte acontece só no volume de forma dissipativa em energia (portanto variando seu vetor k). (direito) Representação das quasipartículas sem massa, Weyl Fermions (dentro do volume) e os Fermi arcs (estados topológicos de superfície protegidos) gerados pelos nodos do Weyl semimetal. O transporte de ambas as quasipartículas acontece sem dissipação de energia.

Uma situação mais intrigante tem sido colocada há mais de uma década, postulando que outros estados quânticos dos elétrons podem também ser formulados a partir de invariantes topológicos, isto é, propriedades de simetrias que mantêm os estados quânticos protegidos diante de deformações. Um destes invariantes são as fases de Berry, que podem ser concebidas esquematicamente como a trajetória que o estado quântico segue para fechar uma curvatura (ver figura 2). As propostas destes invariantes, maioritariamente teóricas, formulam simetrias bem mais particulares e complexas, conhecidas como a topologia não trivial [ver figura 2]. Uma das consequências mais impactantes destas considerações da topologia não trivial é que além dos estados quânticos já esperados pela topologia trivial, podem aparecer outros estados quânticos que estão protegidos de processos dissipativos (ou estados quânticos topológicos). 

Um exemplo de estado topológico quântico é o Weyl Semimetal [figura 3]. A primeira diferença marcante que surge neste material, se comparado a um semimetal trivial (ou convencional), é a forma linear de suas bandas eletrônicas. Esta topologia das bandas leva a definir novas quasipartículas conhecidas como Weyl Fermions, sem massa e mais velozes que os férmions de um semimetal trivial. Outra particularidade neste Weyl semimetal se encontra em seus estados topológicos de superfície, conhecidos como Fermi arc e, que são protegidos por uma simetria chamada de quiralidade. Esta simetria peculiar, pode também ser observada em algumas ramas de árvore quando se enrolam, que fornecem a direção de giro da mão direita e outra da mão esquerda, sem se sobrepor entre si (ver figura 3). Esta quiralidade apresenta seu análogo quântico topológico no Weyl semimetal, onde a quiralidade de dois Weyl Fermions forma dois Fermi arcs na superfície. Assim, um Weyl semimetal se caracteriza pela existência de seus Weyl Fermions dentro do volume (e obedecem à topologia trivial) e de seus Fermi arcs na superfície (consequência da topologia não trivial) [ver figura 3].

Apesar do número importante de predições teóricas de estados topológicos quânticos e seus invariantes, a observação destas predições tem sido elusiva, já seja pela falta de materiais quânticos sintetizados prístinos (ou com inexistente influência da desordem atômica), ou pelas limitações nos experimentos em medir propriedades físicas associadas às quasipartículas e estados de superfície topológicos.

Enfrentando este desafio, nossa equipe de pesquisadores fez um estudo das propriedades físicas em condições extremas (temperaturas muito baixas, T, altas pressões, p, e intensos campos magnéticos, B) do material rede de Kondo CeRu4Sn6 (CRS), o qual muito recentemente foi sugerido para hospedar o estado topológico Weyl semimetal. Devidas às fortes correlações entre os elétrons de condução e os momentos localizados produzidos pelos elétrons 4f, se forma uma quasipartícula Kondo híbrida e muito massiva, a qual é descrita pela física quântica de muitos corpos.  

Prévios estudos revelaram que o estado fundamental deste material se encontra muito próximo de uma transição de fase quântica contínua, conhecida como Ponto Crítico Quântico (QCP) [figura 1]. O QCP define a separação entre dois estados quânticos à temperatura do zero absoluto T = 0 K. No entorno do QCP, espera-se que as flutuações quânticas sejam predominantes para formar novos estados quânticos coletivos e excitações de baixa energia. Evidências experimentais da existência deste QCP foram previamente reportadas nas medidas de transporte elétrico e calor específico anômalas realizadas em baixas temperaturas (até 0.4 K) e campos magnéticos intensos (até 9 T), sinalizando a emergência de um comportamento crítico quântico ou criticalidade quântica. Esta criticalidade quântica só pode ser explicada pela quebra da quasipartícula Kondo e pela ocorrência de excitações coletivas de baixa energia mediadas pelas flutuações quânticas. E mais recentemente, cálculos teóricos prediziram  que o CRS poderia hospedar o estado Weyl semimetal, embora sua comprovação experimental continuasse elusiva. 

Este desafio foi superado por nossa equipe, que desenvolveu experimentos de transporte elétrico e calor específico em temperaturas extremamente baixas de até 0,04 K,  uma ordem de grandeza abaixo dos valores anteriores, no Laboratório de Materiais Quânticos, da Universidade Técnica de Viena  (LMQ, TUVIEN) liderado pela “Profa. Silke Paschen”. Considerando que não existe solução comercial para medidas nessas condições extremas, o grande desafio foi conceber plataformas experimentais “home-built” capazes de medir com alta resolução propriedades como o efeito Hall espontâneo (produzido sem campo magnético) e o calor específico. Ambas as técnicas exigem forte refinamento técnico: para o efeito Hall, uma preparação extremamente precisa de contatos em cristais anisotrópicos; para o calor específico, a aplicação de uma onda de calor alternada (AC), isolando a capacidade calorífica da amostra (alguns mg) do grande volume da célula de pressão (centenas de gramas). Tudo isso mantendo temperatura estabilizada próxima do zero absoluto e condições hidrostáticas de pressão.

Cabe mencionar que o Prof. Larrea contribui nestes experimentos tanto no LMQ-TUWIEN, assim como, na reprodução das medidas experimentais dentro dos intervalos de temperatura disponíveis nos criostatos do laboratório LQMEC-IFUSP que atualmente coordena e, que teve uma importante contribuição de financiamento FAPESP 2018/08845-3. A confiabilidade e reprodutibilidade dos resultados das propriedades físicas obtidas em nossos experimentos revelam, pela primeira vez, que um estado topológico Weyl-Kondo semimetal emerge de uma transição de fase quântica contínua, ou QCP (ver figura 1). Também com ajuda de contribuições teóricas, nossos resultados experimentais indicam uma nova rota para entender os estados topológicos quânticos. Em nosso material, as correlações eletrônicas no composto CRS são precursores para conduzir este material próximo de um QCP, quebrando a quasipartícula Kondo. Nesta situação dominada por flutuações quânticas, emergem novas excitações de baixa energia que, combinadas às simetrias cristalinas, favorecem o surgimento de invariantes topológicos, como bandas eletrônicas cruzadas e os nodos de Weyl. Assim, um estado Weyl-Kondo semimetal se estabiliza. Nossa descoberta abre uma nova rota para compreender a conexão entre simetrias de topologia não trivial e flutuações quânticas.

Para o Prof. Julio Larrea, o grande desafio experimental para seguir avançando no entendimento dos estados topológicos quânticos aponta a três principais horizontes. Por um lado, se deve continuar inovando a precisão e a adaptação das medidas de transporte elétrico e de calor específico que permitam revelar os estados topológicos protegidos na superfície. Por outro lado, se deve procurar novos materiais candidatos na proximidade de um QCP, mas que possam hospedar uma desordem atômica mínima e controlada, do tipo uma desordem peculiar. Materiais prístinos são incomuns, posto que a princípio, a desordem atômica é onipresente em todo material. Assim, ter um material mais próximo da realidade pode ajudar a estender a universalidade deste novo tipo de materiais quânticos topológicos. Finalmente, esta descoberta inédita desperta o enorme interesse em estender as capacidades criogênicas, sem uso de hélio líquido, de nosso laboratório LQMEC-IFUSP para um regime de temperaturas mais próximo do zero absoluto. Isto último certamente motiva um maior esforço para a obtenção de novos recursos para apoio a pesquisa.

Cabe também ressaltar que as descobertas feitas vão além do interesse da ciência básica. Estados topológicos quânticos, principalmente os da superfície, são robustos e protegidos, portanto quase não dissipam energia. Estas condições são altamente promissoras para futuras aplicações nas áreas da energy harvesting, da spintrônica, da informação e computação quântica.  


 

Contato: Prof. Julio Larrea

tel: +55 11-30916727 
Laboratory for Quantum Matter under Extreme Conditions (LQMEC)
Visite o website: https://lqmec.com/
 

 

 

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